28-06-2009
Ontem, por volta das 11h estávamos no Grão Mestre (408 sul) tomando café da manhã, quando ela surgiu. Ela é uma andarilha de Brasília a quem eu e Mariana (minha filha mais nova) costumamos chamar de nossa amiga. Uma mulher de cerca de 50 anos, com os cabelos crespos brancos, magra, elegante e que se veste como se estivesse desfilando, sempre está de saias ou vestidos longos ou semilongos, sobreposições de tecidos com cores que combinam criando um estilo que me leva a imaginá-la freqüentando a corte candanga sem dificuldades, ao contrário, sua elegância e porte singularizam-na diante da massa burguezoide igualzinha que freqüenta a capital federal... O rosto é sério, queimado de sol e com rugas aparentas, olhos pequenos, mas vibrantes, corajosos.Há algum tempo ela me instiga e queria muito conhecê-la melhor.
Ontem o destino conspirou e ela veio até mim.
Assim que percebi que ela me olhava, sorri com os olhos para que ela se sentisse a vontade para se aproximar e, tentando ser fidedigna, relato abaixo o nosso diálogo:
J- é... ela fala, esperando a aprovação do meu olhar
J-um café..eu quero um café.
M- tá bom, eu vou te dar um dinheiro e vc compra o café.
J-não, eu posso ir lá e pedir o café?
M- pode, a gente põe aqui na conta.
J- mesmo? Vou ver quanto é. (sutilezas da personalidade dela, preocupar-se em perguntar o preço antes de pedir o café mesmo eu já tendo autorizado que ela pedisse).
Joana vai ao balcão do café e volta com o valor do expresso
J- são dois reais, tudo bem?
M-tudo.
J- qual é o seu nome?
M- Mônica
J- e o seu, rapaz?
A- Allan
J- Eu sou Joana Barbosa de Souza (apresenta-se falando o nome completo)
M- Certo, senta aqui com a gente Joana?
J- pode ser? (ela parece se surpreender com o convite, mas aceita de bom grado).
M- pode.
Joana coloca na cadeira em frente ao Allan, as coisas que carregava em suas mãos, são várias sacolas com manuscritos, cadernos, bíblias. Ela dirige-se ao balcão do café e volta com uma fumegante xícara do expresso.
M- Joana, vc é bahiana?
J- Eu to em Brasília agora, eu sou brasileira (mais uma sutileza, ela não quis dizer a naturalidade). E olhando prá mim, diz:
J- Mônica, não é?
M- é
J- Eu to compondo um livro
Ao meu olhar atento repete:
J- é, escrevendo, compondo um livro
M- sobre o que?
J- sobre o crime organizado. O que vc acham disso?
M- eu acho que o crime organizado pode estar na cadeia, mas está também no meio da gente, no congresso, por exemplo,
J- e vc?
A- Acho que esse assunto dá muito pano prá manga e que o crime ta perto da gente.
Joana olha prá mim e diz:
- Vc é uma figura bonita.
M- Vc também é bonita, eu te vejo há muito tempo, respondo e complemento:
M- eu também to compondo um livro?
J- é?
M- é um livro de cartas
J- cartas sobre o que?
A garçonete traz o nosso café.
M- Joana, divide comigo esse sanduíche?
J- Não obrigada, eu já comi. (não parecia ter comido, mas não aceitou. Mais tarde volto a oferecer e ela novamente recusa). Retomando a conversa sobre o livro:
M- sobre o universo, as angústias do feminino. Eu sempre escrevo cartas e agora estou trocando cartas com uma amiga que será agrupada e transformada em um livro.
J- O universo feminino é interessante, o lado sexual...
M- o lado sexual é bacana, mas o nosso livro fala mais das vivências, dos comportamentos da mulher, da mãe, não explora o lado sexual, não.
J- escrever é sempre importante, principalmente porque tem que fazer pesquisa. Vc trabalha em que?
V- com publicidade... crime organizado (eu e o Allan rimos do comentário que fiz).
J- vc faz propaganda também, design? (ela parece realmente se interessar pelo assunto).
M- eu trabalho na CAIXA e presto consultoria de comunicação para algumas áreas, aí sim a gente faz propaganda, pesquisa, trabalha com relacionamento com cliente.
Joana muda completamente o rumo da prosa e diz:
J- eu quero muito um jornal
M- jornal, a gente não comprou jornal hoje.
J- um jornal para divulgar o livro
M- Ah, prá divulgar o livro...(pensei que ela queria um jornal prá embrulhar algo).
J- eu tenho um caderno aqui e escrevi o projeto do livro
M- posso ver?
J- pode, claro.
È um caderno desses de várias matérias com muita coisa escrita. Joana escreve em letra de forma, sem erros de gramática. A letra é legível e bonita. Folheando o caderno vejo muitas folhas escritas sobre diferentes assuntos (ecologia, medicações) e uma página apenas com o roteiro do livro sobre o crime organizado. O livro tem três partes e ela a partir de agora vai falar das duas primeiras.
J- principalmente a segunda parte, porque a primeira parte é fácil conseguir ajuda da imprensa, a imprensa é forte, tem poder
M- é o quarto poder
J- pois é a imprensa tem interesse em publicar meu livro. Eu preciso de uma medalha de ouro
M- medalha de ouro, física?
J- sim, uma insígnia, uma medalha, para a condecoração. Eu quero fazer uma condecoração de um policial federal e prá isso eu preciso de um advogado. Preciso de uma ajuda, já tentei muito, advogado, procurador, eu to quase desistindo do sonho
M- às vezes a gente sonha de uma forma dura e a vida fica dura com a gente também
J- mas se eu não for fundo no que eu quero o sonho não se realiza. Vc não acha?
A- mas às vezes o sonho volta, ele vai e depois volta...
J- é. Eu preciso de uma ajuda para conseguir pesquisar. Outro dia eu fui numa biblioteca e só prá pesquisar eles me cobraram um comprovante de residência?
M- só prá pesquisar?
J- só prá pesquisar.
M- isso sim daria uma matéria no correio, vc não pode ser proibida de pesquisar pq não tem comprovante de residência.
A- não, não pode.
J- as coisas estão difíceis, fiador, uma vez eu tava tentando alugar um apartamento e eles me exigiram o fiador
M- fiador faz parte do contrato imobiliário
J-mas tem o contrato de caução ( ela sabe o termo jurídico para o contrato que prescinde de fiador), nessa época eu podia pagar seis meses adiantados, era uma kitnete, um aluguel razoavelmente barato, uns 400, 400 e poucos reais, mas eles não quiseram, eles querem é que eu fique assim tendo que pedir um cafezinho...
Daí, ela meio amargurada despediu-se e foi embora... mais tarde, por volta das 18 horas vi Joana atravessando o eixinho de cima na altura da 109 por ali...
segunda-feira, 22 de março de 2010
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Parece que ela é esquizofrênica e tem 3 filhos que o abandonaram...
ResponderExcluirCara dissonante,
ResponderExcluirconvido você a visitar o blog lulupisces.blogspot.com para ler a experiência que tive com Joana. Acredito que vai complementar a sua...
Um grande abraço,
Lulupisces.
SERÁ que ela tem mãe ou pai ou parentes a procurando? Parece que ela é de Macaé, RJ.
ResponderExcluirCaros Anônimo, Lulupisces,
ResponderExcluirSou vizinho dela atualmente, pois ela dorme nas ruas perto do meu prédio, e precisamos ajudar, pois ela passa por graves necessidades. Gostaria de saber se vocês tem informações que levem a pai, mãe, algum parente que possa estar procurando pir ela. Entrei no blog de Lulupisces e não achei nada sobre ela.
Inspirei-me em sua crônica e outras reportagens e então decidi dar o meu testemunho sobre essa incrível figura, a Srª Joana Barbosa de Souza. Um abraço: http://contosdaslavras.blogspot.com.br/2014/10/joana-barbosa-de-souza-elegante.html?spref=fb
ResponderExcluirGente, o que poderemos fazer por ela?
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