Out/2006
Minha cabeça está dando um nó, Na quarta-feira à noite eu vi e me lambuzei com as cores fortes, com as cores intensamente vibrantes do Cirque de Soleil. Lá eu vi o azul mais azul de todos e o vermelho mais vibrante que o por do sol de Brasília em agosto e junto com as cores, vi as acrobacias sem fim e sem teto, sem cerca e sem impossibilidade, o cirque de soleil nos apresenta saltimbancos cheios de possibilidades, de conquistas, de precisão e técnica. Nós todos podemos tudo junto com os mágicos artistas do circo.
Mas, hoje pela manhã, para não esvaziar a minha alma, acordei, meio sem ter dormido ainda e fui à Bienal...
A Bienal de 2006 é oposto do cirque de Soleil, a bienal nos mostra um mundo de impossibilidades, a bienal nos esfrega na cara a realidade do ultimo ser vivo e este está enjaulado entre arames farpados (tem muito arame farpado nessa bienal), as cores da bienal são o esgoto negro e fétido a céu aberto do Congo que é exatamente igual ao esgoto que suja grande parte dos lugares, a bienal é cinza, a bienal mostra a puta, o travesti, o soldado violento, a fome, quase o fim. A bienal não é doce, o único doce da bienal é um mundo de açúcar,mas que não pode ser lambido, o que se lambe nessa bienal é a violência.
Hélio Oiticica apresenta o seu parangolé ao tempo que lambe demoradamente um revólver e, como se não bastasse, no andar de cima um gato delicia-se comendo um rato, passo a passo..., a minha cabeça deu um nó...
E ando mais um pouco e dou de cara com umas sem fotos de crianças yanomamis numeradas, rostos índios e em sua maioria desaparecidos ou desaparecendo por causa de mais uma estrada... a estrada que nos leva agora aos vídeos de transeuntes invisíveis aos olhos das ruas..
Se há leveza na bienal? Sim, pouca, mas há. O barco que nos faz navegar no mar da Bahia ou o skatista que voa no requebrado da sambista.
Na vida e na bienal, tem hora que tá tudo literalmente de cabeça para baixo, há uma casa onde mesa está colada no teto e a cama na parede...
E a arte latino americana, africana e do oriente médio também estão lá, argentinos, nigerianos, uruguaios nos oferecendo um sem número de cores e formas pra que a gente desperte e resgate a capacidade de se indignar.
Isso, acho que achei a palavra, essa é a bienal da indignação, da não esperança, a bienal que nos oferece uma chance de, por meio da arte, nos repensar e repensar esse mundo que nos envolve, que nos absorve e que, nesse momento, não nos absolve.
segunda-feira, 22 de março de 2010
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