11-2009
Claro que eu sei que enquanto eu estou aqui vivendo a minha vidinha milhões de coisas estão acontecendo ao mesmo tempo, várias vezes, pego-me olhando pela janela daqui do 16.andar e pensando sobre a vida de cada uma daquelas diminutas pessoas que vejo daqui...Imagino haver algo de não explicado, não vislumbrado e isso me intriga, deixa sempre curiosa. Esta semana estou sendo tocada por histórias que relatam acontecimentos simultâneos, porém, completamente dissonantes, só que dessa vez históricos, brasileiros e reais.
Estou indo ao festival de cinema de Brasília, que começou na terça-feira com o filme sobre a vida do Lula. Uma bela e improvável história que todos conhecemos, mas é filme, romanceado, onde os olhos do diretor, o Barreto, lulista de carteirinha, influenciam os acontecimentos e mudam os ventos conforme o que ele quer mostrar... Mas, tá valendo, a história do Lula é bela, intensa e deve ser contada mesmo.
No primeiro dia da mostra competitiva, vou lá ao Cine Brasília, na sessão das 23:30h, com a minha filha maior de idade como companhia, sem ter a mínima noção da programação e sou presenteada com dois belos curtas (Homem Bomba e Os amigos bizarros de Ricardinho) e com um longa, documentário, lindo, alegre, pra cima, cheio de samba, união alegria, que é o Filhos de João, Admirável mundo novo bahiano.
Na certeza de que precisamos resgatar a história recente do Brasil, fico sabendo da importância do João Gilberto e do Moraes Moreira pros novos bahianos, admiro-me como uma galera pôde morar durante seis anos numa chácara vivendo em completa harmonia, com samba, futebol, amor e backs muitos backs, sem disputas de grana, fama e estas coisas comuns a todos nós reles e capitalistas mortais... tudo isso rolava nos finais dos anos 60 e primeira metade dos anos 70.
Votei excelente pro filme, saí do cinema dizendo que o Tom Zé era o meu João Gilberto, recomendei o filme pra todo mundo, cantei pombo correio o dia todo, feliz pra caramba.
Ontem, louca por cinema que sou, volto ao festival, e, aquela coisa toda, muita gente, burburinho, duas curtas (Bailão, ótimo, retrata a vida de homens gays de idade mediana em SP, antes do coquetel da aids) e um outro, Água Viva que eu achei muito chato.
Na platéia, eu já tinha visto o Senador Roberto Freire, mas, de novo completamente desavisada, não sabia a programação mas fiquei feliz de saber que o longa era de Brasília.
E aí, começa Perdão Mister Fiel, que relata a morte de um operário pela ditatura brasileira. O documentário tem como fio condutor um ex-analista do Doi codi, absolutamente informado e de língua solta, que começa a falar nomes, fatos e datas, completamente assustadores sobre o que ocorria nos bastidores daqueles portais do inferno que eram as salas de tortura dos órgãos de repressão brasileiros. Há entrevistas do Lula, FHC, Sarney, Paulo Markun, Jarbas Passarinho, de uma mulher que escreveu para o livro Tortura Nunca Mais, voz em off do Geisel, entrevistas do Roberto Freire, de torturados, da família do operário morto, depoimentos de brasilianistas mostrando as nefastas asas da águia americana por sobre todo aquele circo de horrores que foi formado durante uma década ou mais na América latina... foi de morrer, de se envergonhar, pra nunca mais se esquecer. Tortura nunca mais....
Festival de Brasília do cinema brasileiro cada vez mais vivo, forte e atuante. Bacana!
Mas, voltando às dissonâncias, o mais louco é que as duas realidades, a do leve e alegre filme dos Novos Bahianos e a da horrenda tortura daqueles brasileiros, aconteceram simultaneamente nesse país enorme e controverso... Enquanto naquele sítio lindo se fumava maconha e fazia-se samba e amor até mais tarde, bem perto dali, no Rio de Janeiro mesmo, muitas pessoas estavam sendo torturadas e mortas.
Nossa, isso me bateu tão forte... tantos brasis, tantas (im)possibilidades, samba e tortura caminhando desarticuladamente, mas ao mesmo tempo, nesse mundão sem tamanho que é o Brasil.
Hoje tem mais festival... vamos ver o que pinta por lá.
Bjs
Mônica
segunda-feira, 22 de março de 2010
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