Forum social mundial - nov 2005
Onde paramos mesmo?
Há eu falava de realizar sonhos indo ver o Galeano e o Saramago....
Vamos ao contexto:
Sábado, 08:00, a casa onde eu estava era próxima a tal casa de espetáculos, não me lembro o nome, onde ocorreriam as palestras. Saio de casa, a pe, e ao chegar, inacreditavelmente, vejo uma fila enorme, gente, que povo mais politizado o gaúcho...Inúmeras pessoas de todas as cores, formas e tamanhos, tendo em comum muita alegria e bom humor juntas para entrar no estádio que cabe 5.000 pessoas e por volta das 09:0h estava lotadíssimo.
Na mesa o prêmio Nobel , o Saramago, uma mulher que o acompanha (entrou muda e saiu calada), o Dulce (ministro do governo Lula), o Galeano.
O tema: Pixote hoje: utopia e política.
Todos, inclusive o Galeano, falam da utopia como mola propulsora da realização, quase como um sonho que será realidade amanhã.
O Galeano inclusive falou belamente sobre um pintor que ele conheceu em Cartagena das índias que morava em um lixão e que pintava muito bem. Em seus quadros os pássaros e plantas eram sempre maiores que os homens e Galeano terminou dizendo que aquilo era realidade, pois realidade não é só o que vc vive, mas também o que vc acredita viver, que na barriga da terra com certeza um novo mundo será possível.
Foi ovacionado
O Dulce falou sobre a utopia na política e como ela era necessária para abrigar os sonhos que se tornariam realidades futuras.
E aí, ouviu-se vaias, muitas vaias, rolou uma disputa ideológica entre o PT e o PT do B (psol) e o PcdoB, e aconteceu algo belo, as palmas do PT não cessavam, e aos poucos a vaia foi cessando e as palmas continuavam, foram mais de cinco minutos de palmas incessantes...Bacana.
Aí vem a vaia real (aquela que não é um urro, mas uma ducha fria), Saramago começa dizendo que tem uma má notícia, que ele não era utopista e que achava que a utopia não servia para nada...Que para os milhões de pessoas que passam fome, utopia não representa nada. Que o que mudou o mundo não foi a utopia e sim a necessidade, que a esquerda deveria trocar a utopia por trabalho e falando sobre democracia disse que não vivemos em democracia alguma, que a única democracia permitida era votar em tirar um governo que não gostou e eleger outro que não sabe que quer. Que quem verdadeiramente nos governa são os organismos internacionais e que eles não são nada democráticos... E por aí vai, bateu, bateu, bateu.Pediu um posicionamento claro dos governos ditos de esquerda sobre questões mais amplas sempre amparado na questão vamos parar de parar de sonhar e efetivamente começar a fazer...
Aí sim o ginásio veio abaixo, as palmas anteriores foram poucas diante dos urros de satisfação da dita nova esquerda...
Já eram 13 horas e eu voltei para o território do Fórum, Rio Grande 40 graus.
Fui ver as palestras relativas a gênero.
A primeira que vi era sobre prostitutas no Brasil e na América Latina. As profissionais do Sexo se apresentavam e contavam como era a vida delas, o que elas esperavam e nada mais, uma Argentina até começou uma discussão num contexto mais político (que a meu ver era o que interessava), mas as brasileiras apenas falavam sobre si e distribuíam panfletos e jornais.
Como lembrava Boaventura na outra palestra, as prostitutas completamente fora do movimento feminista, até meio antagônicas, já que uma parte do movimento feminista julga que elas incentivam o machismo...
Depois fui a uma discussão muito interessante sobre a abertura dos arquivos da ditadura onde se propunha a mobilização da sociedade para a abertura e ações tangíveis para que isso ocorresse.
Na mesma tarde ouvi também, com os olhos cheios d’água, as denúncias de maus tratos ‘a índios em uma tenda que era dos direitos humanos e estava redigindo um documento para levar ao governo sobre as dificuldades do povo indígena. A maioria dos silvícolas tinha sido ameaçada de morte e tinha parente morto por grileiros de terra e exigiam, não só a demarcação, como a possibilidade de viver em paz nas terras demarcadas. Há muito trabalho a fazer nesse campo...
As feministas tinham um barco lindo, todo decorado que era o quartel general delas e toda a tarde fazia um passeio para ver o pôr-do-sol do Guaíba que é considerado um dos mais bonitos do Brasil (eu que sou de Brasília, meio duvido, mas tudo bem), bem eu estava com aquele palestino que eu falei na outra carta, então o convidei para ir comigo fazer o passeio. Fomos para o barco, eu entrei e quando ele entrou, qual não é a minha surpresa quando levanta uma moça e diz que o barco era fechado que eu não podia entrar, que estava cheio (cheio de cadeiras vazias) e eu argumentei que podia sim, que era mulher, que tinha sido convidada pelo CEFEMEA e a moça inflexível, até que outra levantou e me perguntou se o meu amigo era Gay, pode? O barco era para mulheres, gays e lésbicas, homens não podiam entrar...Em pleno fórum social mundial e para um passeio apenas, não era para discutir ou debater...Fiquei boba...
Já eram cerca de 21:00 horas, fomos jantar e fui para casa pensando que o Boaventura tem que estar em todos os lugares mesmo, que o discurso dele precisa ser ouvido e re-ouvido por todos e TODAS.
sábado, 19 de junho de 2010
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